Assinado: Claudio Villa! por Luca Del Savio

Assinado: Claudio Villa!

por Luca Del Savio
 Para marcar os vinte anos de Claudio Villa como capista de Tex, Luca Del Savio, da redação da Sergio Bonelli Editore, fez uma bela entrevista com o desenhista, material que foi apresentado ao fãs nas edições de Tex Coleção 372,373 e 374. Boa leitura.

Em março de 1994, com a chegada as bancas italianas do nº 401 do gibi mensal de Tex, começava oficialmente a carreira de Claudio Villa como capista do ranger mais famoso dos quadrinhos italianos. Para festejar seus vinte anos ininterruptos nesse encargo fundamental, perturbamos o sempre ocupadíssimo desenhista da cidade de Lomazzo, roubando dele um tempo valioso para que nos contasse o que ha por trás da elaboração de uma capa de Tex. E aqui está o que conversamos.

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Luca Del Savio: Antes de mais nada, parabéns pela marca atingida! Como leitor, a minha memoria ainda guarda o impacto da chegada dos seus traços nas páginas do nosso ranger. Como você se re­corda da sue estreia, primeiro como desenhista de historias e depois como autor das capas?

Claudio Villa: Com trepidação. A primeira hist6ria de Tex era uma alegria porque finalmente eu desenhava o faroeste, gênero que sempre amei, mas o primeiro contato com o mocinho não foi nada alegre. Era necessário aprender a psicologia e, já no primeiro golpe, eu errei de forma clamorosa, desenhan­do o com as sobrancelhas arqueadas da primeira última pagina, tanto que um leitor escreveu dizendo que eu seria mais adequado pra desenhar Diabolik! Sem falar dos chapéus, uma das coisas mais difíceis de desenhar, que eu fiz enormes, sinal da preocupação psicológica, e tive que apagar boa parte antes da impressão.

Foi Claudio Nizzi quem me guiou na compreensão do personagem e, aos poucos, eu comecei a conhece-lo. Mas como acontece com as pessoas reais, também nunca se chega a conhecer definitivamente um personagem de quadrinhos. Quanto mais o desenha, mais o co­nhece e o retrato que fez dele adquire consistência.

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O primeiro Tex, aos 14 anos de idade, e Tex 30 anos depois.


Luca Del Savio: Sobre a ilustração da primeira capa (Tex ita­liano n° 401, no Brasil, Tex n° 311, revista em todo o seu esplendor em Tex Ouro n° 47), como foi a construção ? Imagino que você sentia uma certa responsabilidade, recebendo o bastão de um artista amado como Galep. E então? Fazer e refazer, mudar aqui e ali, ou foi "a primeira está boa"?

Claudio Villa: Não, nada disso. Ainda hoje eu mudaria. Na época foi mesmo difícil porque era preciso aprender os mandamentos de Tex numa capa: personagem bem visível e reconhecível, jamais dar a impressão de superioridade esmagadora sobre o adversário, manter uma pose puramente aventurosa e variar as situações.  Esse ultimo detalhe é cada vez mais árduo, pois com mais de 640 capes, o risco poten­cial de semelhanças nos temas abordados é grande.

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Luca Del Savio: Repassando as capas publicadas ate hoje, você  vê claramente uma evolução  no seu traço? Quais são as diferenças e mudanças no seu modo de desenhar ou de encarar a elaboração das ilustrações que mais saltam aos olhos ao rever o seu trabalho dos últimos vinte anos?

Claudio Villa: Eu penso que, mesmo sem me dar conta, a evolução existe. E isso porque todos os dies eu começo com a intenção de desenhar melhor do que no ultimo trabalho entregue. Eu sou critico ao olhar para as capas que fiz e sempre encontro novos motivos para fazer a próxima um pouco melhor.

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Luca Del Savio: Entre tantas, quais são as que você recorda com mais afeto, e quais as que mais causaram sofrimento para chegar a versão definitiva?

Claudio Villa:  Ha uma capa que traz em si tanto o afeto quanto o sofrimento: A Dádiva de Manitu. O sofrimento se deveu a extrair uma imagem de um tema não aventuroso, mas mais otimista, ousando dar uma consistência diferente a simples e pura aventura de Tex. Eu fiz cinco esboços porque uma cena pode ser contada de vários modos, ainda mais se não é uma que envolve a ação clássica. O afeto se deve justamente ao tema da capa, que não e Tex, mas a situação. Enquadrada por trás, do alto, para deixar o personagem principal em segundo plano e focar no estado de animo de Tex, homem do oeste com um profundo respeito pela natureza em que vive, que vê o massacre dos bisontes diante de si perder-se no horizonte. As folhas levadas pelo vento acrescentam um toque de melancolia. E uma capa anômala, o foco não é sobre alguma coisa que acontece, mas algo que aconteceu, deixando por conta da imaginação do leitor qual pode ser a expressão de Tex, já que ele e enquadrado de costas. Outra quebra da tradição.

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Tex 428 - A dádiva de Manitu


Luca Del Savio: Além das 245 capas da serie mensal (ate julho de 2014), você; desenhou os 356 mini pôsteres inseridos na nova reedição e as 239 capas da pri­meira Coleção Histórica em Cores): quais são as diferenças, se e que existem, entre trabalhar em um ou em outro tipo de ilustração?

Claudio Villa:  Sobre os mini pôsteres, deve-se dizer que eles nasceram como capas para a serie brasileira de Tex Edição Histórica. Impressos em formato quadrado, foram adaptados ao nosso formato de impressão quando Sergio Bonelli decidiu fazer um agrado aos leitores italianos, publicando aquelas capas como pequenos pôsteres de brinde. Mesmo sendo baseadas na cronologia de Tex, elas me permitem uma maior liberdade de escolha para o que ilustrar. Mas sempre levando em conta as eventuais semelhanças com outras capas da serie. E era Sergio quem me sugeria a ideia da ilustração, fazendo um esboço rápido do que ele tinha em mente. Hoje o trabalho é todo comigo: eu vejo toda a história e busco uma situação que, com uma substituição adequada, pode ser a nova capa ou mini pôster. Já as capas da edição colorida tem a particularidade de serem pensadas com o céu branco que depois são colorizadas pela ótima Cristina Pajalunga. A montagem da cena tem os mesmos mandamentos das capas oficiais e as mesmas dificuldades. A maior delas e que aumenta a quantidade de imagens a serem descartadas por já terem sido usadas.

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Esboço descartado para Tex Edição Histórica


Luca Del Savio: Fale um pouco das várias passagens da elaboração de uma capa.

Claudio Villa:   Primeiro eu tento saber se a história já tem um titulo: isso ajuda na sintonia com a cena. Depois eu dou uma olhada atenta nas paginas que me são enviadas em PDF. Ai vem a escolha da imagem, que deve ser significativa, que não revele muito e nem muito pouco, seguida de uma verificação em todas as capas desenhadas por Galep e nas minhas, para confrontar eventuais semelhanças. Daqui eu parto para o esboço. Antes eu fazia bem mais, mas hoje acontece de eu ficar só em duas situações. E muitas vezes eu mando para a aprovação da Editora só um dos dois esboços, aquele que me convence mais. Se o desenho não é aprovado - o que acontece com mais frequência do que se imagina - uma rápida troca de ideias com a redação permite que eu me sintonize melhor com o que se pretende e elaboro outro esboço: faço os traços a lápis, tiro uma fotocópia e nela acrescento o peso das áreas escuras com uma hidrocor, para dar a ideia mais próxima possível do branco e preto definitivo. Aprovado esse desenho, tiro uma nova fotocópia em papel transparente, refaço os traços no verso com um lápis dermatográfico e depois transfiro a imagem para a folha definitiva com uma pena delineadora com ponta de metal, fazendo um decalque. Em seguida eu redesenho a cena, tentando melhorar os detalhes, e ai passo para a arte-final. Concluído o desenho definitivo, fago uma fotocópia em formato A4 numa folha de cem gramas, especifica para fotocópias coloridas, e acrescento as cores com hidrograficas e com ecoline, uma aquarela liquida. Escanceio o trabalho para o meu arquivo e a capa esta concluída!

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Luca Del Savio: As capas são mesmo belíssimas. E o Villa desenhista de quadrinhos? Não temos uma HQ assinada por você desde o Tex italiano n° 504, aquela do retorno de Mefisto! (no Brasil minissérie publicada em 2004) Você gostaria de voltar a desenhar páginas de quadrinhos? Ou, quem saber já está fazendo isso bem quietinho?

Claudio Villa:   Confesso que estou mesmo fazendo uma, quietinho, mas com muitas interrupções pelo trabalho de desenhar as capas, e por isso a coisa segue lentamente.

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Minissérie Mefisto


Luca Del Savio: Olhando para o passado, o que você se recorda de seu inicio? Como foi trabalhar lado a lado com Franco Bignotti e depois emergir e ver a sua assinatura em um gibi?

Claudio Villa:   Na verdade não foi um trabalho, mas uma verdadeira escola. Bignotti jamais aproveitou o meu lápis em seu trabalho, mesmo porque, naquela época, eu certamente teria estragado o que ele fazia. Eu aprendi muito com ele e lembro com afeto até mesmo dos comentários sobre a pouca qualidade que havia em alguns desenhos meus. Tudo o que eu vivi naquele ano e meio no estúdio dele serviu para formar em muito uma plataforma fundamental para encarar os quadrinhos. Desde que eu comecei a dar os primeiros passos sozinho no mundo da aventura dos gibis, cada traço de lápis numa folha e um agradecimento silencioso a ele.

Luca Del Savio: A sua estreia bonelliana foi com Martin Mystere: como você julgaria, hoje, os seus trabalhos da época e a sua posterior chegada a Tex?

Claudio Villa:   Rever meus primeiros trabalhos faz reaflorar toda a ingenuidade, mas também a paixão, que havia em cada desenho. Eu vejo que o tempo passou pelo tipo de técnica, pela montagem, pela mensagem da imagem. São pegadas na areia do tempo que constituíram um percurso, tombos e alegrias incluídas, para chegar ate aqui. Desenhar Tex foi uma grande oportunidade, mas que logo revelou também o peso de manusear um monumento nacional como e o ranger.

tex_willer-kirjasto-001Luca Del Savio: Como foi participar da fase de estudos do personagem Dylan Dog e depois de Nick Raider?

Claudio Villa:   Estimulante e criativo. Com Dylan Dog, no inicio eu pe­guei o caminho errado, estava tão concentrado na ideia de fazer um personagem que pudesse ser facilmente manuseado pelos outros desenhistas que ele acabou caracterizado a ponto de não espelhar mais as características inglesas do personagem. 0 próprio Tiziano Sclavi (o criador do personagem) me deu um toque e sugeriu a semelhança com o ator Rupert Everett, pedindo que o deixasse com o rosto mais magro e enrugado, em comparado com as imagens do filme Memorias de um Espião. Para Nick Raider o estudo foi mais demorado: Claudio Nizzi queria o rosto de Ryan O'Neal do filme The Driver, mas eu achava  problemático transpor aquele tipo de expressão no papel ai fui autorizado a buscar um rosto que fosse reconhecível e manuseável. Saiu uma mistura de Robert Mitchum com Kirk Douglas. Mas depois Ivo Milazzo recebeu a tarefa de ajustar o personagem e o deixou mais original. No caso de Nick eu também cuidei dos esboços dos coadjuvantes, dos carros e das armas. Para Dylan Dog, o primeiro escada que eu havia desenhado era inspirado em Marty Feldman. que depois virou Groucho Marx. Para o carro, eu havia pensado num Austin Healey Lenham, esportivo com sabor vintage, dois lugares e sem capota, meio improvável para o clima inglês mas sem duvida inconfundível e de reconhecimento imediato. Foi substituído na estrada pelo mítico fusca branco.

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Luca Del Savio: Que conselhos você daria a quem deseja seguir a carreira de desenhista de quadrinhos?

Claudio Villa:   Copiar para aprender, analisando a razão de cada traço que se imita do autor de referencia. Exercitar o desenho em todos os campos: e preciso saber visualizar de tudo. Estudar a composição da pagina, analisar como contar uma cena. Desenhar quadrinhos não e só desenho bonito. que se existe é melhor, mas também é, principalmente, a capacidade de contar alguma coisa e, ao fazer isso, saber emocionar. Jamais se contentar com a primeira ideia que vem a mente, dar a si mesmo a chance de refazer, de melhorar. Buscar sempre ficar no tema que se quer narrar palavras a mais são desnecessárias. Buscar, no limite do possível, a síntese. Não se abater com os erros e recomeçar a cada dia, desafiando a folha branca e tentando desenhar melhor do que ontem. E buscar sempre a diversão. Se o desenhista se diverte, por uma humana forma de empatia a distancia, os leitores também se divertem. Essa e a verdadeira magia do gibi!

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