Com a palavra o editor de Tex Mauro Boselli

ENTREVISTA COM MAURO BOSELLI


Para matar a curiosidade de muitos texianos que querem saber detalhes da vida dos autores de Tex, Foi apresentada nas edições de Tex Coleção nºs 389,380,381,382,383 uma completa entrevista do grande roteirista e editor de Tex na Itália, Mauro Boselli. O homem por trás do mito.  Tex não é como nós. Ele nos fascina porque e algo maior.” (Mauro Boselli)


 




[caption id="attachment_2203" align="alignleft" width="300"] M. Boselli[/caption]

Comecemos com os seus dados, como data e local de nascimento, estudos e profissão. Eu nasci em Mildo no dia 30 de agosto de 1953, que também foi o dia em que o grande ciclista Fausto Coppi venceu o titulo mundial. Mildo foi e ainda e uma cidade de imigração, para onde vão todos os italianos em busca de trabalho. Minha mãe era piemontesa e meu pai emiliano, daquela região da Emilia que se chama La Bassa, em razão da sua planície chata, perto do rio Pó, a terra de Giuseppe Verdi e de Giovanni Guareschi, o autor da opera Dom Camilo. Eu gosto muito daquela terra (e da sua comida), mas talvez por uma reação à planície, quando era criança e andava sozinho de bicicleta pelas margens do rio, eu sonhava em me tomar explorador e alpinista, em atravessar florestas e escalar montanhas. Na verdade, alguns dos sonhos de infância se realizaram e passei metade da juventude a subir em montanhas de todo tipo (e cheguei ate a "voar": eu cai umas quatro vezes, mas sempre com consequências mínimas). Mas já na época estava claro que a verdadeira realização dos meus sonhos estava na imaginação, e eu via meu futuro, como um Salgari, a criar aventuras na escrivaninha.


Que lugar tiveram as HQ, principalmente Bonelli, na sua infância? Eu comecei a ler sozinho aos quatro anos de idade, a folhear as revistinhas italianas de Mickey Mouse em formato livreto, e a me apaixonar principalmente pelas grandes Mastantuono-e-Boselli-por-Bira-Dantashistorias de Romano Scarpa, de quem na época eu não sabia o nome, claro (naquele tempo os quadrinhos populares não indicavam o nome dos autores), mas cujo estilo eu identificava de imediato, tanto desenhos como roteiros. E as historias de Scarpa eram complexas, aventurosas, ricas de golpes de cena. Foi amor a primeira vista. Na época eu também devorava as historias feitas por Bottaro, Rebuffi, Chendi. Nas bancas havia Pecos Bill, havia o Corriere dei Piecoli, quo publicava Os Sobrinhos do Capitão e os quadrinhos de Sergio Tofano. E ainda havia as reedições de Flash Gordon, Mandrake, Fantasma, Príncipe Valente. Quando eu tinha dez anos, chegaram na Itália as HQ da escola franco-belga: Michel Vaillant, Blueberry, Asterix, Tintin. Quando eu tinha doze, nasceu a revista Linus, que me fez conhecer Peanuts, Popeye, Jeff Hawke, Ferdinando. Eu sempre li HQ de todo tipo (mas não deixava de lado os romances; já havia descoberto Dickens, Dostoievski, Buzzati, os policiais, a ficção  cientifica, Dom Quixote). Dou um passo atrás: aos cinco anos tive em mãos minhas primeiras revistinhas em tiras de Tex e aos seis encontrei na escola o filho mais novo de Giovanni Luigi Bonelli, Giorgio. Eu ainda me lembro do cheiro da tinta daquelas velhas revistinhas.




[caption id="attachment_2175" align="alignleft" width="275"]G. L. Bonelli G. L. Bonelli[/caption]

Como você se tornou escritor de quadrinhos? Foi por acaso ou por vocação? Por quem ou pelo que foi influenciado? Ao ler alguns dos vários quadrinhos que povoavam as bancas italianas de então, muitas vezes eu "sobrepunha" as imagens e aos textos novas aventuras imaginadas por mim. Fantasia total. Aos onze anos eu guardava varias folhas com os nomes dos protagonistas, um pirata, um caubói, um astronauta, um agente secreto, além dos títulos das aventuras de cada um deles. Verdadeiras "series" que só existiam dentro do meu pequeno e delirante cérebro . As vezes meus amigos escolhiam um titulo e eu, a partir dessa ideia, improvisava complexas narrativas aventurosas com um golpe de cena atrás do outro. Eu sabia que seria escritor, e queria me tomar o novo Salgari ou o novo Fleming, mas creio que me direcionei para os quadrinhos só depois de conhecer pessoalmente G. L. Bonelli e a sua incrível personalidade. Trabalhei dois anos em seu estúdio. Bem, trabalhar não e bem o termo! Nós ficávamos conversando; ou melhor, ele falava e eu ouvia suas historias. O percurso em direção as HQ não foi linear. Depois da universidade - que abandonei quando faltavam dois exames para o final, por razoes A época muito válidas - fiz um sem-número de outros trabalhos (professor, vendedor, tradutor, bibliotecário, diretor de "quadrinhos na TV") e só me tomei roteirista profissional "no meio do caminho da nossa vida".




[caption id="attachment_2207" align="alignleft" width="226"] O Passado de Kit Carson[/caption]

Como e quando você entrou para a SBE e qual foi seu primeiro trabalho? E como passou a fazer parte da equipe de Tex Willer? Depois de vários pequenos trabalhos para a Editora, depois da experiência no estúdio de G. L. Bonelli e da versão televisiva dos quadrinhos Bonelli feita em conjunto com Giorgio Bonelli e Ferruccio Alessandri, minha primeira colaboração continuada com a Bonelli teve inicio na época em que Sergio Bonelli começou a publicar na Itália as revistas da editora francesa Dargaud, com a marca Bonelli-Dargaud em 1982, e Tiziano Sclavi era o editor da versão italiana da revista francesa Pilote, com o nome Pilot. Eu fazia a paginação, corrigia, traduzia e escrevia textos de matérias em metade do expediente. Na outra metade, na sede central da Bonelli, eu escrevia outros textos (a seção de cartas de Martin Mystere, os artigos de Tutto West), corrigia avalanches de paginas em quadrinhos e começava a escrever ou reescrever (de forma anônima) as minhas primeiras historias (e a noite eu ainda trabalhava numa biblioteca publica de Milão, mas isso não conta!). A primeira historia de Tex nasceu de um argumento idealizado junto com Giorgio Bonelli, e fiz o roteiro de umas cem paginas antes de passar a G. L. Bonelli em pessoa. Ele manteve intactas as paginas já escritas e concluiu a historia, sem levar em conta o meu argumento por demais complicado, e a historia foi passada a Letteri. Dois anos depois, Tiziano Sclavi passou-me a historia para que ela fosse alongada e para que o final (muito rápido) fosse arrumado. Eu acrescentei umas vinte paginas, reescrevi outras, mas sem poder manter a versão original. Essa historia era A  Ameaça Invisível. Não se podia ter a pretensão de escrever Tex sem acumular uma experiência prévia. Por isso, após escrever a aventura River Bill a partir de uma ideia de Nolitta, pensei em criar experiência com Zagor, e consegui convencer o severo, Decio Canzio de meu valor, porque, algum tempo depois, por ocasião de uma crise de Nizzi, Canzio pediu-me para tapar um buraco e escrever uma historia com Marcello (que havia desenhado, alguns dos meus primeiros roteiros de Zagor). Procurei escrever a melhor historia que eu tinha em mente e foi O Passado de Carson. A partir dali eu me tornei, por acordo tácito, o vice de Claudio Nizzi.




[caption id="attachment_2208" align="alignleft" width="229"] Rumo ao Forte Apache[/caption]

 O que significa para você escrever histórias de uma lenda dos quadrinhos como Tex? A primeira coisa que me vem a cabeça e que e uma honra! E uma grande responsabilidade. Além de um sonho realizado, é claro! Busco manter alta a bandeira de Tex e, ao mesmo tempo, procuro, divertir-me. Se a cada vez eu pensasse "o que G. L. Bonelli diria?" ou "o que os leitores dirão?", então eu não conseguiria me divertir e tampouco os leitores. Digamos que a minha visão de Tex já esta englobada e em meu imaginário e que deixo correr a caneta e a imaginação. Creio que cada um dos leitores tem uma visão própria de como Tex deve ser; e - eu que fui e sou leitor de Tex - também tenho uma bem definida. Também Creio que a minha visão tenha uma boa margem de credito, graças aos anos de proximidade com o criador de Tex, com o seu editor e com a Editora. Mas não estou a me colocar sobre um pedestal! Digo apenas que eu seria pouco profissional se não encarasse a tarefa como profissional.




[caption id="attachment_2213" align="alignright" width="205"] Os Assassinos[/caption]

Seus roteiros sempre impressionam por uma grande construção psicológica dos personagens. Por que dar tamanha importâncias aos atores de cada aventura? As tramas tem muita importância para o sucesso de uma HQ e eu sempre busco torna-las emocionantes e inesperadas. Mas no fundo, como dizem os estruturalistas, todas as historias escritas e impressas, a partir de Homero, baseiam-se em poucas tramas-base, sempre as mesmas. Eles estão cobertos de razão. Para esses mesmos estruturalistas os próprios personagens saem, simples funções narrativas e todos se equivalem. Mas aqui eles saem, desmentidos pelos fatos. Ha personagens que, aos leitores, parecem mais vivos que os vivos! Ulisses, Polifemo, Sherlock Holmes, Os Três Mosqueteiros..: Tex! O que se recorda de uma trama sempre são, os personagens, por isso é fundamental que uma historia tenha atores com personalidade forte. E não:, só os protagonistas, mas também os atores coadjuvantes. Meus romancistas preferidos - e cite, um por  todos, Dickens - deram alma e caráter ou, de todo modo, uma migalha de vida a cada mínimo figurante! Os quadrinhos são, diferentes de um romance do Século XIX, mas também na breve duração de uma revista' as criaturas de papel devem atingir o leitor com algo de característico e único (no nosso caso o desenhista; ajuda!). E acrescento que meu modo, de escrever não é cerebral, mas sim espontâneo e quase automático. Ou me vem ou não me vem. Mas como escrevo de modo quente e não frio, tenho tendência a pensar nos atores das minhas historias como pessoas de verdade... eu me preocupo com elas, me emociono se morrem. Talvez eu consiga comunicar um pouco disso aos leitores. Os vilões de uma HQ, por exemplo, não podem ser banais..!


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[caption id="attachment_2214" align="alignleft" width="231"] Zagor[/caption]

Seus personagens não costumam ser maniqueístas. As vezes os bons não são de todo bons e os maus nem sempre são completamente maus. Você acha que o ser humano sempre possui ambos os lados? Como se deve dar a ilusão de realidade, ainda que seja estilizada, os personagens lapidados e ambíguos dão mais facilmente essa ilusão; além disso, criam mais atenção e participação emotiva. Na história da HQ italiana, Guido Nolitta c Giancarlo Berardi foram mestres em criar personagens desse tipo. Mas nem todos os meus characters são ambíguos. Particularmente em Tex eu também uso muitos mocinhos e bandidos maniqueístas ao estilo dos velhos faroestes dos anos Trinta!


Como você se define como autor de Tex? Identifica-se com G. L. Bonelli, Guido Nolitta ou Claudio Nizzi? Não creio que seja possível identificar-se com outro autor. Cada um tem seu estilo, e nem pode ser de outro modo. Mas é obvio que, ao escrever Tex, o principal autor de referencia deve ser G. L. Bonelli. Por ter passado bastante tempo com ele e per ser ele uma versão mais real que a real de Tex Willer, parece ate que conheci Tex pessoalmente e, para isso, posso falar dele com conhecimento de causa! A parte as frases feitas, é o personagem que não pode ser traído. Ele sempre deve ser o herói duro e sem hesitações que G. L. Bonelli criou e espero que seja assim também nas minhas historias.




[caption id="attachment_2204" align="alignright" width="229"] Dampyr[/caption]

Como você vê o nosso ranger? Um homem com uma conduta honrada, sempre a lutar pela justiça, decidido e duro na medida certa, ou também um homem sensível e que sofre? Tex nunca hesita. E esse e o problema. Ele AGE. Para ele, o pensar e ultrarrápido, pré-racional. Tex não pode parar quando alguém este em perigo, mesmo se naquele momento ele está desarmado, mesmo se esta sob a mira de uma arma. Ele pode errar, mas nunca per ser idiota ou mesquinho. E não pode - quase nunca - errar sobre as pessoas. Ele SABE quem e bom e quem e mau e em qual porcentual. Foi assim que, em manha opinião, Bonelli­ pai o descreveu. O sofrimento esta dentro dele e raramente vem a tona. Tex e um HEROI forjado como aqueles míticos e deve-se ter isso em mente. Talvez alguém se espante, por não ter entendido direito as minhas historias, mas eu sou contra a humanização de Tex (eu humanizo os personagens secundários). Tex não é como nós. Ele nos fascina porque e algo maior.


Seus roteiros também costumam dar maior destaque a Kit Willer. Você acha que o filho de Tex sempre viveu a sombra do pai ou imagina um crescimento pessoal para o personagem? Eu não o uso mais do que G. L. usou. Eu simplesmente o uso de vez em quando, como deve ser. Os pards são QUATRO, não DOIS. E também não e mais fácil escrever só para Tex e Carson. A rotina me entedia. Per isso, se tenho uma boa ideia, adequada a eles, coloco Tigre ou Kit ao lado de Tex. Kit, per exemplo, foi o único a acompanhar o pai na aventura da Argentina.




[caption id="attachment_2205" align="alignleft" width="226"] AMEAÇA INVISÍVEL[/caption]

Pode nos constar como se desenvolve todo o processo de criação de uma história de Tex, todos os passos, ate que a revista chegue as mãos do leitor? São poucas as perguntas fáceis, hein? Eu poderia falar durante horas! Mas prefiro dizer que a ideia pode chegar de qualquer lugar e a qualquer momento. Eu digo chegar porque uma ideia procurada e muito menos interessante e natural do que uma achada, se me fiz entender. E para Tex e muito mais difícil do que para Zagor ou Dampyr. Existem muito mais características precisas e o mundo do Oeste DELE e muito mais consolidado. Além disso, depois de mais de 600 edições, as ideias novas rareiam. Mas uma sempre chega. E quando chega eu escrevo meia pagina e volto a trabalhar em outras coisas, e ESPERO que me cheguem (não sei de onde!) as novas ideias em fase de desenvolvimento e desenrolar da trama. Eu escrevo diálogos e indicações para o desenhista, uma cena de cada vez. Espero que ele os estude, faça o esboço a lápis e me mostre. Depois o artista faz a arte-final e manda as paginas definitivas. Algumas paginas por vez, não toda a história junta, visto que escrevo umas quinze historias ao mesmo tempo. Quando a história esta concluída, eu a releio, ajusto os diálogos e passo ao letrista. Feito isso, mando corrigir os erros de letreiramento e outros eventuais erros de desenho. Ai vem as matérias, as provas de impressão e a impressão. Dos artigos, o trabalho redacional, eu cuido pela manha. A tarde eu escrevo.


Qual e a sua técnica para desenvolver uma historia com um número exato de páginas, como por exemplo uma edição única de Tex em 110 páginas? Quase todas as historias Bonelli tem 94 páginas. Dampyr, por exemplo. Tex costuma ser em duas ou três edições, 220 ou 330 páginas atualmente - também nesse caso há um número fixo de páginas. Bem, e só observar e começar a calcular os tempos com atenção quando se chega aos dois terços da historia. É questão de experiência. Em dezenas de milhares de páginas escritas eu devo ter me desviado umas duas vezes e cortado uma ou duas paginas já escritas (mas NÃO já desenhadas) em vinte anos de atividade!


Gradualmente você esta se tornando o autor que mais escreve Tex. Você planeja alterar algo no personagem? Calma! Tex deve continuar a ser ele mesmo. Não se pode efetuar alterações no padrão bonelliano! Pode-se, e deve-se, escrever historias cativantes. Ponto. Assim, não haverá irmãos separados no nascimento, filhos, netos e noivas! Mas em algumas ocasiões nos inspiraremos em algum episodio menor da verdadeira historia do Oeste, para lhe dar uma versão aventurosa e romanceada, como em algumas aventuras decididas com Sergio Bonelli - aquela dos Soldados Búfalos, por exemplo, ou aquela sobre os guerrilheiros do Kansas e do Missouri.


tex_capaNa sua opinião qual foi seu melhor trabalho em Tex? E o mais difícil? A minha historia preferida, no sentido da que mais me satisfaz como sucesso profissional, muda de acordo com os períodos da minha vida. Por certo a minha historia texiana de estreia, O Passado de Carson, com Marcello, serviu muito bem ao objetivo de me lançar como autor e de me fazer ser apreciado pelos leitores. Outra historia que me parece bem feita, porque em linha com o personagem, épica mas também com referencias aos filmes de cavalaria de John Ford, é Rumo ao Forte Apache, feita com Jose Ortiz. Eu tenho uma predileção pelo Tex Gigante Os Assassinos porque tratava-se de uma trama muito entrelaçada e, per isso, difícil de escrever, com investigações paralelas e muitas trocas de cenários para divertir Alfonso Font com sua estreia. Sim, tudo somado, as historias que mais me satisfizeram são as que mais me mantiveram ocupado, aquelas com linhas narrativas que não podiam ser "perdidas no caminho". Para Tex eu ainda citaria a complexa Os Invencíveis e Em Território Selvagem. Para Zagor, historias como O Explorador Desaparecido e a saga na Escócia, O Clã dos Ilhas. Para Dampyr, historias com fashback entre passado e futuro, como Os Lobisomens ou A Maldição de Varney. Mas as vezes a simplicidade também satisfaz, porque ainda mais difícil de ser obtida. A minha historia "curta" de Tex feita por Andreucci, Herói por acaso, e um desses exemplos de simplicidade, e foi obtida a partir de uma pequena ideia administrada com atenção. Outra desse tipo e a "historia de fantasmas" A Dama do Colorado.


Seus roteiros para Alfonso Font são escritos em italiano ou espanhol? Eu roteirizei as primeiras páginas de Os Assassinos em espanhol. Ainda bem que Font me disse que conhecia o italiano, e por isso todas as outras eu escrevi em italiano mesmo. Já para Seijas, Ortiz e os outros, mandamos para uma tradutora profissional, mas antes de enviar os roteiros traduzidos eu sempre faço um controle pessoal.




[caption id="attachment_2201" align="alignleft" width="208"] A Dama do Colorado[/caption]

Sabe-se que você desenvolveu uma sintonia especial com Marcello e com Letteri, autores infelizmente falecidos. Como se desenvolve hoje o seu trabalho com os desenhistas? Marcello, com quem trabalhei de forma esplendida em Zagor, foi o colaborador natural para minha estreia texiana e juntos fizemos algumas de nossas melhores historias. Um dia aquele grande cavalheiro da cidade de Ventimiglia me disse que sua esposa NUNCA havia lido uma de suas historias antes de eu começar a fazer os roteiros! Um grande elogio, não acham? Letteri foi o segundo a trabalhar comigo quando me tomei ajudante do roteirista oficial de Tex, Claudio Nizzi. Fiquei orgulhoso, porque eu havia crescido com os quadrinhos do grande Guglielmo (que também havia sido o desenhista de A Ameaça Invisível, a minha primeira historia parcial texiana). Falar agora de outros artistas e preferir um deles seria errado tom os outros. Também seria falso, porque cada um tem suas características e eu acho estimulante e diferente trabalhar com cada um.




[caption id="attachment_2198" align="alignright" width="145"] Herói por acaso[/caption]

Você sempre sabe para qual desenhista vai escrever ao começar uma nova história e a idealiza de acordo com suas características, ou este fator e indiferente? Eu sei quo Sergio Bonelli, por razões praticas, diria que a coisa e indiferente, mas no fim não e sempre assim. Para o citado n° 600, per exemplo, levamos em conta uma preferencia ambiental de Ticci. Sabemos que ele e Fusco preferem espaços abertos e outras coisas, mas são detalhes pequenos, não de escolhas complicadas. Pergunto por exemplo a Mastantuono: "Você prefere índios ou bandidos para a próxima historia?". Se ele diz "bandidos", fazemos a historia com bandidos! Mais ponderada é a escolha para uma serie mais complexa como Dampyr, na qual darei historias oníricas e fantasiosas a autores não-realistas como Luca Rossi e Michele Cropera, aventuras dinâmicas aos desenhistas mais realistas e aquelas de terror a quem sabe fazer melhor os monstros!




[caption id="attachment_2199" align="alignleft" width="330"] Dampyr[/caption]

Algum tempo atrás teve em Portugal uma apresentação mundial de quinze novos desenhistas de Tex. Come você vê essa entrada de tantos novos artistas na equipe de Tex? Esse fato pode representar o inicio de uma nova fase na vida de Tex? E uma fase necessária. Tex precisa de milhares de paginas por ano. E todos os novos artistas são ótimos e apaixonados.


Ultimamente houve um reforço em nível de roteiristas. Você acha que isso era inevitável? E, com tantos roteiristas, não ha o risco de Tex não ser mais Tex?Bem, não somos tantos assim. Depois que Nizzi se aposentou além de mim só houve a chegada Faraci, Ruju e aquela -mais esporádica - de Manfredi. Não ha o quo temer sobre a qualidade. Ao contrario! Da para esperar muita coisa boa.




[caption id="attachment_2200" align="alignright" width="230"] Em território selvagem[/caption]

Qual será o futuro de Tex? E o de Mauro Boselli ? Você se imagina, daqui a 10 ou 20 anos, ainda escrevendo historias para o ranger ou um dia gostaria de tentar algo novo? Nós sempre nos vemos a mirar o futuro para fazer a programação dos anos seguintes, mas nunca assim tão distantes! E certo que gosto de escrever e quero sempre escrever quadrinhos. Mas eu ainda gostaria de trabalhar num romance de terror ou de aventura, só que Tex, Dampyr e Zagor não me dão tempo.


Você disse que chega a escrever quinze historias ao mesmo tempo... para Tex, Dampyr e Zagor. Que método você usa e como consegue ter inspiração para três personagens tão diferentes? Ao escrever historias eu nunca fiquei sem inspiração porque, quando não tenho ideias para a historia X, passo a historia Y, que naquele momento estimula-me mais. Assim dou-me o tempo para achar ideias. Enquanto escrevo uma historia, o inconsciente também trabalha para as outras, que naquele memento estão adormecidas. Em todo caso, sempre quo me sento a maquina de escrever para retomar uma historia interrompida, RELEIO e penso em tudo que escrevi daquela historia até aquele momento, para não perder o fio da meada e para reentrar na atmosfera da aventura em questão. A diferença de gêneros entre os três personagens é outro fator que ajuda.


Zagor uma para camisaZagor renasceu com você e com Moreno Burattini. Como aconteceu essa sinergia? Na época (era 1989) o editor de Zagor era Renato Queirolo, meu colega de redação já nos tempos da Orient Express. Ele também acompanhava Mister No e Nick Raider (realmente um supertrabalho) e, para ajuda-lo, também trabalhei um pouco com os dois títulos, mas os argumentos para Nick nunca se tomaram roteiros. Para Mister No eu escrevi uma única historia e, como eu já sabia ha anos que aconteceria, dediquei-me a Zagor. Meu primeiro roteiro publicado foi A Chama Negra, de um texto de Ferri, e depois veio a minha colaboração com Marcello que me levaria a minha estreia em Tex. Eu e Queirolo idealizamos um renascimento zagoriano a partir de uma viagem cheia de imprevistos para o Espirito da Machadinha. Pareceu-nos obvio que, além de mim, as historias também seriam escritas por Burattini, que já havia estreado na série regular com aventuras muito clássicas e apreciadas pelos leitores. O ciclo de historias, todas ligadas entre si (uma novidade parcial. mas também um retomo ao estilo do Zagor de Nolitta) teve um grande sucesso, que pôde ser verificado no inesperado aumento de vendas. No inicio da experiência, Bonelli passou-me a editoria de Zagor, e Queirolo concentrou-se em Nick Raider. Burattini tomou-se o meu braço direito zagoriano, até que, anos depois e com o crescimento de meus compromissos com o nascimento de Dampyr, aos poucos eu lhe passei todas as árduas tarefas e agora o editor de Zagor é, com toda a competência, ele! Entre nós nunca houve uma rusga sequer, e ele e seguramente o autor que menos maltratei. Quase nunca pedi a ele para reescrever uma cena. Os outros roteiristas passam mau, porque para eles isso e uma experiência quase diária!


THE END


Fonte: Tex Coleção nºs 389,380,381,382,383


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